A tecnologia não como substituta, mas aliada do Direito

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  • Bruno Calzavara
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Por Lucas Duarte

Hoje em dia consigo racionalizar minha escolha pelo Direito em parte como um ato sem sentido de rebeldia. Passei muito da minha infância e adolescência sendo estimulado por meus pais a consumir conteúdo de ficção científica e aprender a praticar o ‘direito de consertar’ qualquer eletrônico que encontrava na minha frente. 

Então, no auge do turbilhão de sentimentos que o finalzinho da adolescência traz, me desvincular filosófica e economicamente o mais rápido possível dos meus pais me parecia fazer todo o sentido. Assim, entrar em direito na USP passou a ser meu alvo. 

Quando dei por mim, naturalmente havia me reaproximado de certa forma da área de tecnologia e descoberto um mundo novo.

Só que, à época, justifiquei a escolha pelo meu interesse em entender, da forma mais profunda possível, as estruturas que regem o funcionamento de sociedades. 

Criei uma narrativa na minha cabeça de que genuinamente era infinitamente interessante o fato de bilhões de pessoas ao redor do mundo serem capazes de se auto-organizar a partir de acordos tácitos e ficções (o estado-nação, a moeda corrente, etc).

Até por isso minha saída do “Direito Clássico” ocorreu de forma inconsciente e aos poucos, por conta de atividades extracurriculares na própria universidade. Começou com a descoberta, em um grupo de estudos focado na interface entre o Direito e a internet, de uma bolsa do Comitê Gestor da Internet no Brasil para participar do Internet Governance Forum, organizado anualmente pela ONU.

Quando dei por mim, naturalmente havia me reaproximado de certa forma da área de tecnologia e descoberto um mundo novo, no qual discussões embrionárias sobre o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção de Dados trouxeram perspectiva sobre o quanto a regulação trazida pelo Direito é significativa. 

O desejo em provocar uma mudança estrutural tão significativa quanto a que estava acontecendo no mercado financeiro ao longo dos últimos anos foi avassalador. 

Com isso, eu tinha tudo para continuar no meio e ser feliz explorando o assunto, como tenho certeza que muitos são, mas minha escolha em abandonar a faculdade e empreender junto a meus sócios veio à tona com o pouco que experimentei do trabalho prático jurídico. 

Pra mim, ficou claro que o mercado jurídico ainda tem práticas e cultura ultrapassadas e tóxicas e que há muito conflito de interesse no trabalho envolvido, com boa parte das pessoas que trabalham na área simplesmente não sendo felizes, assim como as pessoas que dependem de advogados muitas vezes não gostando do que recebem.

Assim, o desejo em provocar uma mudança estrutural tão significativa quanto a que estava acontecendo no mercado financeiro ao longo dos últimos anos foi avassalador. 

Minha missão pessoal passou a ser ajudar a chegarmos em um mundo onde clientes e advogados consigam focar nas partes do trabalho que realmente exigem e estimulam um cérebro humano, abrindo caminho para que encontrem sentido no dia a dia.

Vejo como inevitável que o futuro do Direito seja positivo, mesmo que uma enorme disrupção seja necessária para chegarmos lá.

Ao olhar para o lado e ver centenas de outras legaltechs almejando mudanças igualmente ousadas e milhares de estudantes carregando ‘a bandeira’ da interface entre o Direito e a tecnologia, vejo como inevitável que o futuro do Direito seja positivo, mesmo que uma enorme disrupção seja necessária para chegarmos lá. 

No fim do dia, sou extremamente grato por ter tido a oportunidade de estudar direito, ainda que não tenha sequer me formado e que meu trabalho diário como Head of Product nada tenha a ver com isso. Isso acontece por perceber o quanto a universidade impulsionou modelos mentais de disciplina, empatia, curiosidade intelectual e inconformidade com injustiças, essenciais para a vida como um todo. 

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